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Meninos feiticeiros!!!!! Não interessa o passado...  escrito em segunda 17 agosto 2009 00:40

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"Não importa qual tenha sido o passado de uma pessoa: seu futuro é imaculado”. Ditado popular

 Perante o convite para ir ao Centro de Acolhimento de crianças em Palanca- Luanda fiquei assustada, pela enorme responsabilidade desse acto. Tinha medo de me sentir pequena perante aquelas almas destroçadas, perante cenários de miséria, medo...talvez de ser incapaz de me confrontar com mundos que só vejo nos noticiários e televisões. Mas, sacudi todo esse medo e aceitei com toda a responsabilidade o convite de um jovem estudante de medicina. Este, na cadeira de Saúde Comunitária acabou por travar conhecimento com o centro fundado pelo padre Horácio da instituição Verbo Divino e acabou por realizar um peditório que iria entregar aos meninos. Acabei, mais uma vez, numa sequência de acasos por ser convidada a participar na actividade. Lá fomos da Maianga até a Palanca a ouvir Amália Rodrigues, intercalada por Kizomba. No carro quatro pessoas, felizes por irem realizar uma actividade meritória, mesmo após uma hora de engarrafamento tremendo. E finalmente chegamos a um pátio coberto de terra vermelha pontuado por um imbondeiro. Os muros pintados de amarelo escondiam um terreiro com árvores e pequenas edifícios de um piso onde as tarefas e as actividades do centro são conduzidas. Acho que ficamos todos agradavelmente surpreendidos pela modestia plena de dignidade de todo o espaço. As crianças correm num pequeno recinto de areia com duas balizas. Embora de dimensões reduzidas é muito útil ao exercício, ao convívio e à necessidade de ser criança daqueles senhores das ruas e da amargura da vida. Fiquei a vê-los até se juntarem a nós para a actividade agendada. Aderiram á actividade mas contrariados. Afinal, estavam a realizar uma actividade fundamental: Brincar...e o que é mais importante que a brincadeira? após entrarmos para o refeitório...ficaram ali a olhar para nós...e eu parada enchi-me de confiança. Foi quando o Edson se lembrou de direccionar a abertura do momento para mim. E, com todos aqueles olhos, àvidos de pressa para irem embora, virados para mim, não hesitei a forçar a minha voz baixa e fina para todos. A plateia não era fácil... -"todos os dias falam, falam..." - percebi que apenas as palavras não movem aqueles corações. Estas crianças estavam cansadas de palavras e sedentas de amor, de explicações, de certezas e de atenção...não querem palavras. Reduzi a oratória a algumas linhas em que comecei por lhes reconhecer o mérito e o valor. Reconheci, também as dificuldades que os atormentam, mas que sabia que todos eles tinham um sonho. E que os queria ouvir dizer quais e que nunca iam desistir deles. E depois, como se precisasse de algo que me ajudasse a continuar, encaminhei os seus sonhos ao criador. Pois, porque a tarefa de os fazer continuar apesar dos pesares, não é fácil...quem sou eu para lhes pedir isso? Entreguei esse pedido a Deus...e vi alguns olhos abrirem-se mais, como que a perguntarem se existe mesmo! E eu disse: Porque Ele quer o melhor para todos nós... Calei a minha voz, e esperei profundamente ter suscitado alguma esperança naquelas crianças corrompidas pela dor. Terminadas as apresentações, fomos perguntando um a um os seus nomes e as razões que os levaram às ruas, e por último qual o sonho de cada um. Lá se foram abrindo e contando timidamente algumas coisas...mas a maior parte recusou-se a falar da família e das razões que os levaram lá...no entanto, os sonhos saltavam das suas bocas como hinos à esperança. Admiravelmente miúdos com limitações físicas queriam ser jogadores de futebol, alguns desejavam ser actores, outros jornalistas...e sem esperar havia um que queria ser batuqueiro! Mas confessou ter desistido desse sonho, pelo de ser padre. E eu na minha ignorância, disse-lhe mas podes ser um padre batuqueiro. E foi quando os olhares se viraram para mim!!!! - Um Batuqueiro padre? Isso não pode ser! -Porque não? -Um padre assaltante!? Onde já se viu...dizia alguém enquanto a sala se libertava numa grande risada. -Ooppps! isso não pode ser...disse a rir! Confesso que ver aqueles miúdos mais soltos, deixou-me mais à vontade. Alguns já se aproximavam, mas o toque era algo indesejável ou constrangedor. O Assistente Social, Anselmo fez uma apresentação do Centro desde a sua fundação em 1983 para acolher os meninos da guerra. Um projecto que se iniciou com uma tenda para depois evoluir para várias tendas...e finalmente um conjunto de edifícios condignos mas sem qualquer grau de conforto. Visionei logo um futuro mais acolhedor, uma sala de brinquedos, quartos e não camaratas, psicólogos, ateliers, um refeitório sem o ar de prisão, um terreiro relvado, flores e trepadeiras, um sem número de mimos que estes meninos merecem... O Anselmo terminou a descrição e eu perguntei-lhe a principal razão pela qual os meninos estavam nesta situação. E ele com um ar de quem está em dificuldade, perguntou-me: -É angolana? -Sim, sou! -Mas está a par das nossas tradições? -penso que sim...disse a medo -Pois a principal razão é as acusações de feitiço que recaem sobre estes meninos -Feitiço? Como assim? -Os pais destes meninos julgam que os azares advém destes meninos manobrarem feitiços. Em geral, quando um parente mais velho adoece ou morre deixa o seu legado sobrenatural a um familiar. A ida ao kimbandeiro garante um culpado, normalmente uma criança, que após muita tortura e interrogatório acaba por confessar ter praticado um feitiço. E perante este facto, são expulsos de casa e da família. Infelizmente estes correspondem à maior parte dos casos que temos cá. - Não admira que eles não consigam assumir porque estão cá...e nem consigam falar dos familiares. Volto-me para o grupo que agora vê o filme que trouxemos, e penso que nenhuma vida estagna mediante um passado. Não há karma que impeça a evolução e a prosperidade, tudo depende da visão e do sonho de cada um. Crer e persistir em concretizar esse sonho é o que nos eleva a alma (por mais impossível que se assemelhe). Se tens um sonho persegue-o. Claro! Não esperes um caminho coberto por tapetes vermelhos e ladeado de buffets ricos. Não...não esperes isso. É dificil, é contra-corrente, é saltar sem pára-quedas e tudo pode acontecer...mesmo tudo! Nada é impossível perante a força de um sonho! Era só isto que tinha de preencher as mentes destes meninos do feitiço.

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